domingo, 12 de outubro de 2025

Uma reflexão sobre ter desculpas para recomeçar

A frase de Fabrício Carpinejar — “Por fora, já desistiu. Por dentro, sempre descobre alguma desculpa para recomeçar.” — revela com delicadeza o contraste entre o que mostramos ao mundo e o que sentimos em profundidade. Ela fala sobre a força silenciosa que habita quem sofre: mesmo quando tudo parece perdido, há algo dentro que insiste em continuar. Esse movimento interno é discreto, quase imperceptível, mas é ele que sustenta a esperança quando a aparência já não consegue mais sustentá-la.

 Nos cuidados paliativos, essa realidade se torna ainda mais evidente. É comum que o paciente — ou seus familiares — vivam momentos de exaustão emocional, tristeza profunda e sensação de fim. Por fora, pode parecer que a pessoa desistiu: ela está calada, sem energia, talvez sem esperança. Mas por dentro, há pequenos gestos de resistência. Há lembranças que ainda aquecem, vínculos que ainda sustentam, desejos simples que ainda fazem sentido — como ver o pôr do sol, ouvir uma música, sentir o toque de alguém querido. Mesmo diante da finitude, o ser humano continua buscando razões para seguir — não necessariamente para vencer a doença, mas para recomeçar emocionalmente, encontrar sentido no instante, reconectar-se com o que ainda é possível viver.

 Essa frase nos convida a olhar com mais profundidade para o outro, a não julgar pela aparência, a compreender que o silêncio ou a apatia podem esconder uma vontade legítima de ser acolhido. Ela nos ensina que a presença verdadeira — aquela que não exige, não corrige, não apressa — pode ser exatamente o que o outro precisa para reencontrar forças. Às vezes, o simples gesto de estar é a desculpa que o outro precisava para recomeçar por dentro. Um sorriso, uma conversa breve, um gesto de afeto, um toque gentil — tudo isso pode reacender a chama da dignidade e do sentido.

 Mesmo quando o corpo está cansado, o coração ainda procura motivos para continuar amando, sentindo, pertencendo. E isso nos leva a refletir: você tem conseguido reconhecer os pequenos movimentos de vida dentro de si, mesmo nos dias em que tudo parece desabar? Tem se permitido recomeçar, ainda que em silêncio, ainda que devagar? Tem oferecido ao outro a chance de recomeçar, sem exigir que ele esteja pronto?

 E mais: você tem escutado o que ainda pulsa dentro de você? Tem respeitado seus próprios tempos, suas pausas, seus limites? Tem sido presença para si mesma, ou tem se cobrado por não estar sempre forte? Tem reconhecido que, mesmo nos momentos em que parece ter desistido, há algo em você que ainda insiste em continuar?

 Essas perguntas não têm respostas exatas, mas elas nos ajudam a perceber que o cuidado começa na escuta — na escuta de si, na escuta do outro, na escuta do que ainda vive, mesmo quando tudo parece ter parado. Porque cuidar é isso: é reconhecer que, por dentro, sempre há uma desculpa para recomeçar. E que essa desculpa, por menor que seja, merece ser acolhida com respeito, com presença e com amor.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

SER

“Apenas seja no mundo” é um convite à presença plena e autêntica. Significa abandonar, por instantes, a necessidade de controlar, planejar o...