domingo, 9 de novembro de 2025

A diferença entre cuidar e realizar uma ação

Quando minha tia estava internada, presenciei uma cena que, à primeira vista, parecia comum. Duas enfermeiras entraram no quarto, nos cumprimentaram com cordialidade e disseram: — Viemos trocar a fralda da senhora.

Durante a troca, que foi rápida e tecnicamente correta, elas conversavam entre si sobre assuntos paralelos, riam, estavam descontraídas. E embora tenham deixado minha tia limpa, medicada e, de certo modo, bem atendida… algo me doeu profundamente.

Elas não estavam presentes.

Não olharam nos olhos dela. Não perguntaram como ela estava se sentindo. Não pediram licença para tocar seu corpo. Minha tia, que já não fala mais, apenas escreve, ficou ali — silenciosa, vulnerável, invisível. E eu fiquei com um nó no peito.

Passei dias pensando naquela cena. Me perguntei se essa não seria uma das razões pelas quais ela detesta tanto o hospital. Porque naquele momento, ela não foi vista como a mulher que é — com história, com essência, com dignidade. Ela foi tratada como uma paciente acamada, não como a minha tia.

E foi ali que aprendi uma das lições mais profundas sobre o que é cuidar.

Cuidar não é apenas executar uma ação. Cuidar é estar. É reconhecer. É respeitar.

 Trocar uma fralda, dar banho, ajudar alguém a fazer xixi ou trocar de roupa — tudo isso pode ser apenas uma tarefa. Ou pode ser um gesto de amor. Pode ser o início de uma amizade. Pode ser um momento de conexão, de escuta, de presença verdadeira.

Tudo depende da intenção. Da energia que colocamos. Do que nossa presença comunica.

Será que minhas ações transmitem afeto? Será que, ao cuidar, eu estou dizendo: “Você importa. Eu vejo você.” Será que estou transformando rotinas em experiências de acolhimento?

Uma das cenas mais bonitas que já vivi foi no aniversário da minha tia. Depois que todos os convidados foram embora, uma funcionária — que eu chamo de Anjo da Guarda — puxou um banquinho ao lado da cama, pegou a prancheta e a caneta, olhou nos olhos dela e perguntou: — Onde a senhora deseja que eu coloque cada vaso que ganhou?

Foi nesse gesto, tão simples e tão profundo, que eu entendi o que é dignidade.

Mesmo sem andar. Mesmo sem falar. Minha tia continua sendo a dona da casa. A mulher que construiu aquele lar. A autoridade da sua própria história.

E essa funcionária, com sua presença amorosa, nunca deixou minha tia esquecer quem ela é. Ela não vê apenas a doença. Ela vê a pessoa. Ela vê a essência.

Cuidar é isso. É mais do que afeto. É mais do que técnica. É afirmar, todos os dias, que a identidade do outro permanece viva. Intacta.

Sagrada.

Porque quando cuidamos com presença, criamos memórias. Fortalecemos vínculos. E deixamos marcas que não se apagam.

Talvez o maior gesto de cuidado seja esse: Fazer com que o outro se sinta respeitado, visto, amado — mesmo nos momentos mais frágeis.

E talvez seja por isso que essa frase me toca tanto: “As pessoas esquecerão o que você disse, as pessoas esquecerão o que você fez. Mas elas nunca esquecerão como você as fez sentir.”Carl W. Buehner

Essa é, talvez, a essência dos cuidados paliativos. Mais importante do que o que dizemos, é como fazemos o outro se sentir na nossa presença.

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