É comum encontrar pessoas que, ao receberem a notícia de que sua doença é incurável e ameaça a continuidade da vida, se revoltem contra Deus. Muitas vezes, no primeiro momento, o paciente se apega ainda mais à fé, acreditando que o milagre virá e que sua cura será uma prova de fidelidade divina. Essa esperança é chamada por muitos de “fé inabalável”. Porém, com o avanço da doença e a percepção de que o corpo não responde mais, surge a desconfiança de que o milagre não acontecerá. É nesse ponto que a fé pode se transformar em frustração, dor e até em revolta contra Deus.
Na capelania aprendemos que preservar a dignidade da pessoa é, antes de tudo, respeitar suas crenças, religiosidade, espiritualidade, superstições ou qualquer forma de relação que ela estabeleça com o sagrado. Respeito significa não julgar, não corrigir, não impor nossa visão de mundo. A experiência religiosa e espiritual é íntima e subjetiva: ninguém pode sentir ou viver a relação do outro com Deus.
Quando nos deparamos com alguém revoltado, que questiona por que Deus não o curou, que afirma ter perdido a fé ou que se sente traído após uma vida de devoção, não cabe dizer que sua relação com Deus está equivocada ou que sua visão é limitada. O que podemos oferecer é presença, escuta e acolhimento. Validar que Deus faz parte da vida daquela pessoa, mesmo que agora esteja sendo questionado, é reconhecer sua dor sem tentar anulá-la.
O caminho é abrir espaço para que o paciente se expresse: permitir que chore, que se revolte, que brigue com Deus. Essa catarse é parte do processo de elaboração da dor. O papel do acompanhante espiritual ou familiar não é dar respostas prontas, mas sustentar o silêncio e a escuta, lembrando que há perguntas que não nos pertencem responder.
Sugestões do que dizer nesses momentos podem ser simples, mas profundamente acolhedoras:
· “Eu respeito o que você sente e quero estar aqui para ouvir você.”
· “Você tem o direito de se revoltar, de questionar, de falar com Deus da forma que precisar.”
· “Não tenho respostas, mas posso estar ao seu lado enquanto você busca as suas.”
· “Sua relação com Deus é única, e eu não quero interferir nela. Só quero que você saiba que não está sozinho.”
Essas frases não tentam corrigir, mas oferecem companhia e validam a experiência do paciente. Muitas vezes, o que mais ajuda não é uma resposta, mas a possibilidade de a pessoa se ouvir em voz alta, de perceber que pode acolher sua própria dor sem ser julgada.
Nem todos possuem uma relação íntima consigo mesmos; muitos estão distantes de sua própria essência. Por isso, o papel de quem acompanha é ajudar o paciente a se reconectar com sua interioridade, com sua história e com sua dignidade. O toque humano, a escuta atenta e a presença silenciosa podem ser tão poderosos quanto qualquer palavra.
No fim, lidar com a revolta contra Deus não é tentar apagar a dor ou convencer o paciente de outra visão. É reconhecer que sua experiência é legítima, que sua fé — mesmo em crise — faz parte de sua identidade, e que sua essência continua viva e digna de ser respeitada.

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