terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Sobre sentir-se invisível

No último domingo, fui realizar uma assistência espiritual para um paciente em terminalidade, internado em um hospital público. Por questões éticas, não posso entrar em detalhes. Perguntei a ele: “O que eu posso fazer para que você se sinta acolhido em sua essência? O que eu posso oferecer, neste tempo em que estarei com você, para que se sinta aliviado e confortado de maneira humanizada?”

Com um olhar distante, ele respondeu: “Só de você não me fazer sentir que estou invisível já está fazendo muito.”

Essas palavras foram como um soco no estômago. Imediatamente me lembrei da minha tia e de todas as vezes em que senti, na pele e no coração, que embora alguns profissionais de saúde — incluindo médicos — a tratassem com respeito e cordialidade, não enxergavam suas verdadeiras dores, aquelas que vinham da alma. Por mais que o câncer lhe causasse uma dor física terrível, havia dores internas, emocionais e psicológicas, que eram ainda mais profundas.

Nunca um médico, mesmo os que se diziam paliativistas, cogitou conversar com ela ou conosco, familiares, sobre o luto antecipatório. Nunca acolheram seus filhos, que também carregavam vulnerabilidades e fragilidades imensas. Assim como minha tia, meus primos muitas vezes se sentiram invisíveis diante de médicos e outros profissionais.

Recordo-me de procedimentos dolorosos, como a troca da traqueostomia e uma aspiração que a fizeram sentir uma dor tão desesperadora que ela mesma dizia ter ido ao céu e voltado. Tudo porque não tiveram a humanidade de anestesiá-la e realizar o procedimento com cuidado.

Tratar um paciente com educação não significa oferecer um acompanhamento humanizado. Para que um tratamento seja verdadeiramente humanizado, o paciente precisa se sentir enxergado, acolhido em sua essência, reconhecido em sua história, pensamentos, sentimentos e vulnerabilidades. Precisa sentir que sua presença importa — muitas vezes, mais do que a própria doença. O paciente não é definido pela enfermidade, mas pela totalidade de quem é.

O tratamento humanizado se revela na conexão. É quando o médico ou profissional de saúde não apenas olha nos olhos, mas está diante do paciente sem pressa, presente por inteiro, demonstrando interesse genuíno, atenção e acolhendo não apenas o que é dito, mas também o que é silenciado: o olhar, os gestos, as expressões, o tom de voz, a respiração, os sinais sutis. É quando o profissional transmite, com sua presença, a mensagem: “Neste momento, você é a minha prioridade.”

Mais do que empatia, é compreender que cuidar não é apenas uma profissão, mas uma missão de vida. É onde o profissional encontra sentido, e por isso tudo flui naturalmente, porque vem do coração.

Os cuidados paliativos nos oferecem ensinamentos que podemos levar para toda a vida. Um dos que mais valorizo é este: fazer com que meus clientes e as pessoas que amo se sintam enxergadas por mim. Pergunto com frequência ao meu marido se ele se sente visto por mim, e também aos meus amigos e clientes. Mas é fundamental perguntar: “O que significa, para você, sentir-se enxergado?” — porque a resposta é subjetiva.

Para alguns, sentir-se enxergado é ser acolhido e sentir-se à vontade para ser quem se é, com espontaneidade e liberdade. Para outros, tem a ver com conexão: ser compreendido de maneira tão sutil que até o silêncio, o olhar e as expressões mais delicadas são decifrados, sem necessidade de explicações ou justificativas. Já ouvi de clientes que se sentir enxergado é perceber que meu abraço é de coração para coração, ou porque eu escuto sem interromper, permitindo que falem tudo o que desejam, sem pressa, com toda a atenção do mundo.

Por isso, minha dica é: procure saber se as pessoas significativas para você se sentem enxergadas. Depois, se quiser, compartilhe comigo essa experiência. Porque dizer “eu te amo” a alguém que não se sente visto é como lançar palavras ao vento. Sem conexão, o amor não se enraíza, e a pessoa permanece incrédula, invisível.

 

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