sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Uma reflexão sobre a Fé

A doença da minha tia me obrigou a olhar para a fé de um jeito que nunca havia imaginado. As notícias eram duras: o tumor não respondia à quimioterapia, a imunoterapia fracassara, e a cada dia ele crescia e se infiltrava mais, roubando forças e impondo dores cada vez mais intensas. Eu sabia que o tempo dela era curto e, diante desse cenário, me perguntava: em que ter fé, se nada iria melhorar?

Não havia cura, não havia alívio suficiente, não havia promessa de dias mais leves. A fé não poderia ser depositada em milagres que não viriam. Então, percebi que só me restava uma escolha: amar. Amar minha tia em cada instante possível, estar ao lado dela, segurar sua mão, acariciar sua testa, dizer que eu a amava. A fé, naquele momento, não era esperar que a dor desaparecesse, mas decidir permanecer.

Foi nesse mergulho que compreendi que fé é decisão. É escolher, mesmo em meio ao caos, não abandonar aquilo que pulsa na alma. É dizer: “eu vou ficar”, mesmo quando tudo em volta grita para desistirmos. Mas manter essa decisão exige coragem e apoio. Eu precisei de terapia, de florais, de conversas com meu marido e amigos, de cursos de cuidados paliativos, de ouvir histórias de quem já havia atravessado caminhos semelhantes.

A fé não é apenas um sentimento abstrato; ela é prática, é trabalho interior. É reconhecer nossos limites e buscar ajuda para enfrentá-los. É admitir medos, raivas, desesperos, e ainda assim escolher permanecer. Descobri que minha fé não estava em uma cura impossível, mas em mim mesma: na convicção de que eu seria capaz de aprender, de me fortalecer, de acompanhar minha tia até sua última respiração.

Fé é persistência. É sair da zona de conforto, encarar dores e inseguranças, e ainda assim afirmar todos os dias: eu decidi, e vou honrar essa decisão. É a força que nos sustenta quando tudo parece ruir, e que nos lembra que, mesmo em meio à finitude, podemos oferecer amor, dignidade e presença.

A fé não é acreditar que tudo vai melhorar. A fé é decisão, é presença, é amor que insiste em permanecer mesmo quando não há respostas. É confiar que, apesar das limitações, podemos ser inteiros no cuidado, e que nossa dedicação se transforma em luz no coração de quem amamos.

Hoje, fé para mim é olhar para dentro de si e ter a certeza de que é possível se preparar, aprender o que for necessário, saber onde e com quem buscar ajuda e apoio. Mas, acima de tudo, é ter a humildade de reconhecer que muitas vezes, quando tomamos determinadas decisões, não estamos prontos. Eu não estava pronta. Era leiga, despreparada para estar ao lado da minha tia. Mas por amor a ela, decidi que iria manter minha decisão. Para isso, precisei aprender, aumentar o número de sessões de terapia ao longo da semana, tomar florais, buscar conhecimento e apoio.

Fé é isso: querer se tornar algo, mesmo sem estar pronto. É confiar que a própria fé será a força que guiará e sustentará a postura, convicta da decisão, com disposição e dedicação para enfrentar todos os desafios e colher os aprendizados necessários. É amadurecer, se preparar, até se tornar quem se decidiu ser — ou fazer — em nome do amor.

Mensagem final: A fé não é uma espera passiva. É uma escolha ativa, uma decisão que nos move, mesmo em meio ao caos. É a coragem de permanecer, de amar, de se preparar e de se transformar, até que nossa alma esteja inteira no propósito que escolheu viver.

Perguntas de autoreflexão:

  • O que significa fé para mim, além da ideia de esperar por milagres?

  • Em quais momentos da minha vida eu precisei decidir permanecer, mesmo sem estar pronto?

  • Como posso transformar a dor em oportunidade de amar mais profundamente?

  • Quais apoios e recursos eu posso buscar para sustentar minhas decisões nos momentos de fragilidade?

  • O que minha alma deseja que eu honre, mesmo diante do caos?

  • De que forma posso cultivar fé em mim mesmo, na minha capacidade de aprender e crescer?

  • O que eu quero que permaneça como legado das minhas escolhas de fé?

  • Como posso reconhecer meus limites sem desistir do que é essencial para mim?

Nenhum comentário:

Postar um comentário

SER

“Apenas seja no mundo” é um convite à presença plena e autêntica. Significa abandonar, por instantes, a necessidade de controlar, planejar o...