Quando o amor do outro por nós é verdadeiro, ele se torna uma força que nutre o nosso amor-próprio. Esse amor nos ajuda a enxergar qualidades que às vezes não reconhecemos sozinhos, valorizar características que nos tornam únicos e acolher nossa maneira autêntica de ser. É como se o olhar do outro fosse um espelho que nos devolve razões constantes para nos amarmos com mais ternura e aprendermos a nos aceitar de forma genuína.
Nos cuidados paliativos, essa verdade se revela com ainda mais intensidade. Sempre orientamos os familiares de pacientes em terminalidade a não sentirem culpa por continuar se cuidando e seguindo com suas vidas. Porque quem nos ama, mesmo em meio à doença, deseja nos ver bem, felizes e realizados. É muito comum ouvirmos de pacientes frases como: “será que quando eu morrer, fulano vai saber se cuidar?” ou “vai conseguir seguir em frente sem mim?” No fundo, há uma preocupação genuína: a de que aqueles que permanecem não se abandonem em meio ao sofrimento do luto, que continuem cuidando de si mesmos da forma como foram ensinados, que mantenham viva a prática do amor próprio.
Amar é também ensinar o outro a se fortalecer, a encontrar prazer em se cuidar, a priorizar sua autoestima com independência. É desejar que, mesmo na ausência física, nossas memórias continuem sendo lembranças vivas de afeto, inspiração e valor. Por isso, muitas vezes incentivamos pacientes a escreverem cartas para seus familiares e amigos, como um gesto de continuidade. Essas cartas são lembretes de que seguir em frente não é egoísmo, mas uma forma de honrar o amor recebido. O sofrimento e o drama não honram a memória de quem partiu; o que honra é olhar-se no espelho e se enxergar com o mesmo olhar de admiração e amor que aquela pessoa sempre teve por você.
As memórias significativas devem ser guardadas como sementes que nos lembram do quanto fomos amados. A morte não apaga o que significamos para alguém, nem nos retira de nossa própria essência. É verdade que não teremos mais a alegria de nos reconhecer nos olhos de quem nos amava, mas podemos seguir honrando esse amor sendo quem sempre fomos, oferecendo a nós mesmos o mesmo cuidado e carinho que recebemos.
O amor próprio é o que mantém vivo o amor daqueles que partiram. Ele pulsa em nós como continuidade, como presença que não se desfaz. Por isso, faça sempre por você aquilo que sabe que eles continuariam fazendo se estivessem aqui. Dessa forma, o vínculo permanece, a saudade se torna mais leve e o amor segue vivo, transformado em força para caminhar.

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