Eu iniciei meu acompanhamento a pacientes terminais como parte das atividades do curso de formação em doula da morte. Ontem, em uma conversa com a familiar de um paciente, falamos sobre algo que muitas vezes é esquecido: não devemos parar a nossa vida, nem abrir mão das atividades que nos dão prazer, do autocuidado, da autoestima e do bem-estar pessoal, apenas porque decidimos cuidar de quem amamos em sua terminalidade. Só posso estar verdadeiramente estruturada para cuidar de alguém se primeiro estiver cuidando de mim mesma, respeitando meus limites e atendendo às minhas necessidades psicológicas, emocionais, espirituais, sociais e físicas. Cuidar de alguém é, antes de tudo, ser exemplo de autocuidado e amor próprio.
Essa familiar acreditava que não era justo se divertir enquanto o companheiro não podia mais participar desses momentos felizes. Sentia-se egoísta e insensível, e por isso pensava que respeitá-lo em sua doença significava sofrer junto dele. Esse tipo de crença é mais comum do que imaginamos. Eu disse a ela: em todos esses anos de casamento, o que seu marido mais desejou para você? Que fosse uma mulher feliz e realizada ou frustrada e infeliz? Se fosse ao contrário, você gostaria de vê-lo parando a vida dele, deixando de se divertir, apenas para sofrer junto de você? Quando amamos, desejamos para o outro a felicidade, os sonhos, as vontades e os desejos que sua alma tanto anseia. Aceitar o amor do outro é compreender que, mesmo doente e debilitado, ele continua desejando o melhor para nós. O amor verdadeiro não é egoísta.
Seu marido a quer ao lado dele, mas não sofrendo, não deixando de viver. Ele deseja ter a tranquilidade de saber que você se cuida, que prioriza seu bem-estar e que se ama acima de tudo. Quem nos ama deseja nos ver sempre com amor próprio e autoestima. Se não for assim, não é amor verdadeiro. Ele sabe que em algum momento a doença avançará e a morte chegará, mas a paz que você pode oferecer é a certeza de que jamais vai se abandonar, mesmo com o coração doendo pelo luto. Ele quer que você se lembre dele como alguém que sempre desejou sua felicidade, e que honre esse desejo cuidando de si mesma, mantendo sua beleza, sua vaidade, seu sorriso — tudo aquilo que ele sempre valorizou em você.
As lembranças felizes do casamento podem ser inspiração para que você continue fazendo por si mesma o que ele sempre fez de melhor: desejar que você sorrisse. Ele te amou e, nesse amor, te ensinou a se valorizar e a ser feliz consigo mesma. Honrar esse ensinamento é mantê-lo vivo dentro de você, tornando a saudade mais suportável.
Muitas pessoas, em sua terminalidade, carregam a preocupação de saber se aqueles que amam continuarão se cuidando, se farão por si mesmas o que elas sempre fizeram. Honrar quem parte é seguir vivendo, é continuar praticando o que elas nos ensinaram em vida. É transformar o amor recebido em força para seguir, lembrando que cuidar do outro também é, sempre, cuidar de si.

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