Ter acompanhado o processo da minha tia e também escutado pessoas em estágio terminal fez com que meus valores mudassem naturalmente. Quando deixamos de nos distrair com a rotina e olhamos para a nossa própria finitude — e para a das pessoas ao nosso redor — somos convidados a refletir sobre quais valores, crenças, motivações e visões de mundo estão nos guiando na construção de quem acreditamos que devemos ser e de como queremos viver.
Esses conceitos estão em sintonia com a nossa essência? Fazem o nosso coração vibrar em genuína alegria e paixão por estar vivo? Despertam em nós a sensação de quanto podemos compartilhar com as pessoas à nossa volta? Quantas coisas incríveis podemos realizar por prazer e realização pessoal e, ainda assim, transmitir e compartilhar tantas coisas boas com os outros? Há tanto que podemos deixar de valioso para as futuras gerações.
É sentir o prazer de ser você mesmo no presente, com a gratidão pulsando dentro do peito, sabendo que pode deixar um legado único, só seu, capaz de contribuir para inúmeras histórias de vida. É ter a sensação de realização de que seu legado é a sua marca — a marca de que você passou pelo mundo, viveu a sua própria história e que, mesmo quando não estiver mais aqui, continuará pulsando no coração daqueles que sempre o amaram. As lembranças e os aprendizados compartilhados serão sempre significativos.
Vejo clientes refletindo diariamente sobre o que estão deixando de si no coração das pessoas amadas. Muitos escrevem cartas para que seus familiares saibam e se lembrem constantemente do que foi vivido juntos, de como gostariam de ser lembrados, do que desejam levar consigo dos vínculos de amor e convivência, mesmo após a morte. É sobre o que desejamos deixar de nossa existência e também sobre o que queremos levar da existência dos outros.
Com minha tia, aprendi que o maior legado são as lembranças: partes de nós que permanecem com afeto e amorosidade no coração das pessoas que foram significativas em nossa vida. Talvez, se não nos distraíssemos tanto e olhássemos mais para a finitude, nos importaríamos mais em compartilhar momentos de convivência, em criar experiências que se tornem memórias afetivas para quando não estivermos mais aqui. Presentearíamos mais a nós mesmos e aos outros, vivendo com presença cada instante.
Tudo é efêmero, passageiro. A convivência é uma troca profunda: deixamos algo de nós e levamos algo das pessoas que nos são importantes. Criar lembranças, no fim, é o que mais vai importar. Assim como o conhecimento, elas não se quebram, não se perdem, não estragam, não têm prazo de validade — são eternas.
Aprendi a valorizar mais as pessoas que amo e a me importar em viver com elas de forma mais presente. Passei a transformar momentos simples em lembranças afetivas, a escrever mais cartas, a cultivar vínculos que falam por si mesmos. Porque a consciência verdadeira é esta: as pessoas que eu amo sabem do meu amor não apenas pelas palavras, mas pela presença vivida, pelo vínculo que construímos juntos.

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